IEB 5022 – Tópicos Especiais de História Econômica do Brasil

Prof. Dr. Alexandre de Freitas Barbosa

Início em: 10/03/2020

3º feira | 19h00 às 23h00

Local: Sala 11 – IEB

Objetivos:

Esta disciplina procura recuperar um conjunto de categorias analíticas – economiamundo, economia-mundo capitalista, sistema centro-periferia, desenvolvimentosubdesenvolvimento, ciclos sistêmicos de acumulação e regimes de acumulação – operacionalizadas por autores que, apesar de suas diferentes abordagens teóricas, concebem o capitalismo como sistema histórico constantemente (re)organizado nas suas manifestações temporais e espaciais. Trata-se de realizar um diálogo entre essas diversas abordagens e de avaliar o seu potencial analítico em diferentes momentos e lugares da história do capitalismo – com especial atenção para o caso brasileiro. O que os autores utilizados têm em comum é o esforço para não se deixarem enredar pelas análises monolíticas características do falso universalismo das teorias econômicas e sociológicas convencionais, tão em voga no mundo de hoje à direita e à esquerda.

O curso se inicia (aula 0), com uma discussão metodológica sobre a relação entre história, economia e ciências sociais. As três partes seguintes do curso se complementam, a primeira (aulas 1 a 3) e a terceira (aulas 9 a 12) de cunho mais teórico, e a segunda de caráter mais histórico (aulas 4 a 8). Paralelamente, pretende-se estabelecer conexões e diálogos entre as categorias e as perspectivas metodológicas dos autores da primeira parte do curso (Fernand Braudel, Karl Polanyi, Immanuel Wallerstein, Robert Brenner, Giovanni Arrighi, David Harvey e Robert Boyer), que assumem uma perspectiva sistêmica, mas não focada explicitamente na realidade brasileira; e os da terceira parte (Caio Prado, Celso Furtado, Ignácio Rangel e Florestan Fernandes), que apenas podem pensar o Brasil a partir de uma interpretação estratégica da realidade mais ampla da qual somos parte, mas não de maneira determinista, pois a possibilidade dialética está sempre implícita nas suas formulações.

Ao longo do curso, pretende-se investigar, de maneira mais ilustrativa que exaustiva, como, por meio dos vários arsenais metodológicos, é tecida a complexa relação entre a(s) economia(s) “brasileira(s)” e a economia-mundo capitalista em alguns momentos históricos decisivos: expansão comercial e gestação da colônia; expansão cafeeira e fim do trabalho escravo; industrialização (1930 a 1980); reformas liberalizantes nos anos 1990; e expansão do mercado interno no Brasil sem transformações estruturais dos anos 2000. É conferida atenção especial aos ciclos sistêmicos de acumulação, “britânico” e “norte-americano”, e também à reorganização da economia-mundo capitalista no contexto da ascensão chinesa antes e pós-crise de 2008. O econômico aparece sempre como um conjunto de estruturas, que interagem com as estruturas sociais e de poder, reproduzindo e ou criando novas hierarquias nos vários espaços globais e locais, sem os quais não se compreende a complexa realidade nacional.

Finalmente, são abordadas, por meio de seminários organizados pelos alunos, as obras de quatro pensadores brasileiros que se debruçaram sobre a complexa articulação entre fatores internos e externos como ferramenta explicativa para as rupturas e continuidades na vida social e econômica brasileira sob uma perspectiva histórica, antes e depois do capitalismo ter se expandido no território nacional. Suas convergências e divergências teóricas são explicitadas ao longo do curso, o que permite o contraponto de suas interpretações nos diversos momentos da história brasileira. Não obstante, parte-se da premissa que eles possuem um núcleo comum em termos metodológicos, que compõe um estilo de reflexão sobre o Brasil, que infelizmente foi, em grande medida, abandonado, nos últimos trinta anos.

Estrutura

Aula 0 Economia e História: Uma Interação Difícil, porém Necessária

Hobsbawm, E (1998). Sobre História. São Paulo, Companhia das Letras (p. 106-121).

Braudel, F (1992). Escritos sobre a História. São Paulo, Perspectiva, 2ª. edição (p. 115- 124).

Furtado, C (1972). “Analyse Économique et Histoire Quantitative”, in: L’Histoire Quantitative du Brésil de 1800 a 1930. Paris, Éditions du CNRS (p. 23-26).

Bibliografia Complementar:

Polanyi, K (2009). El Sustento del Hombre. Madrid, Capitán Swing (p. 57-73).

Aula 1Economia-Mundo e Capitalismo: A “Teoria” Braudeliana

Braudel, F (1996). „O Tempo do Mundo‟, Civilização Material, Economia e Capitalismo, séculos XV XVIII, vol. III. São Paulo, Martins Fontes (p. 7-55).

Braudel, F (1996). „Os Jogos das Trocas‟, Civilização Material, Economia e Capitalismo, séculos XV XVIII, vol. II. São Paulo, Martins Fontes (p. 192-216).

Aula 2Sistema Mundial e Economia Mundo-Capitalista: A Interpretação de Wallerstein e a Crítica de Brenner

Wallerstein, I (1983). „The Rise and Future Demise of the World Capitalist System: Concepts for Comparative Analysis‟, in: The Capitalist World Economy. Cambridge, Cambridge University Press (pp. 1-37).

Brenner, R (1977). “The Origins of Capitalist Development: a Critique of Neo-Smithian Marxism”, in: New Left Review, I/104, July-August.

Tomich, D (2011). Pelo Prisma da Escravidão: Trabalho, Capital e Economia Mundial. São Paulo, Edusp, (p. 53-79).

Bibliografia Complementar

Frank, AG (2008). Re Orientar: La Economía Global en la Era del Predominio Asiático. Valencia, Publications de la Universitat de Valencia (Prefácio, p. 15-29).

Pomeranz, Kenneth (2000). The Great Divergence: China, Europe and the Making of the Modern World Economy. Princeton, Princeton University Press (Introdução, p. 3- 27).

Aula 3Continuando o Debate: Arrighi, Harvey e Boyer

Arrighi, G (1996). O Longo Século XX: Dinheiro, Poder e as Origens do Nosso Tempo. São Paulo, Unesp (pp. ix-xiv, 1-36).

Harvey, D (2006). “A Geopolítica do Capitalismo”, in: A Produção Capitalista do Espaço. São Paulo, Annablume. (pp. 129-162).

Boyer, R (2009). Teoria da Regulação: Os Fundamentos. São Paulo, Estação Liberdade (pp. 55-70, 79-90).

Bibliografia Complementar:

Nayyar, D (2014). A Corrida Pela Crescimento: Países em Desenvolvimento na Economia Mundial. Rio de Janeiro, Editora Contraponto/Centro Celso Furtado (capítulos 2 e 3).

Fiori, JL (2014). História, Desenvolvimento e Capitalismo. São Paulo, Boitempo (Prefácio, p. 15-49).

Aula 4Expansão Comercial e Gestação da Colônia

Boxer, CR (2008). O Império Marítimo Português (1415 1825). São Paulo: Companhia das Letras (caps. 2 e 5).

Gruzinski, S (2014). As Quatro Partes do Mundo. São Paulo, EDUSP, Editora UFMG (cap. 1, parte 1, p. 27-49).

Bibliografia Complementar:

Novais, F. (1995). Portugal e Brasil na Crise do Sistema Colonial. São Paulo, Hucitec, 6ª. edição (cap. 2).

Alencastro, LP (2000). O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo, Companhia das Letras (cap. 1).

Aula 5O Ciclo de Acumulação Britânico

Arrighi, G (1996). O Longo Século XX: Dinheiro, Poder e as Origens do Nosso Tempo. São Paulo, Unesp (cap. 3).

Aula 6O Brasil durante a Ascensão, Auge e Crise da Hegemonia Britânica

Arruda, JJA (2008). Uma Colônia entre dois Impérios. Bauru, Edusc (cap. 2).

Mattos, IR (2004). O Tempo Saquarema. São Paulo, Hucitec, 5ª. Edição (p. 21-29, 92- 113).

Graham, R (1973). Grã Bretanha e o Início da Modernização no Brasil (1850 1914). São Paulo, Brasiliense, 1973 (p. 131-165).

Aula 7O Ciclo de Acumulação Norte-Americano

Arrighi, G (1996). O Longo Século XX: Dinheiro, Poder e as Origens do Nosso Tempo. São Paulo, Unesp (cap. 4).

Aula 8 O Brasil durante a Ascensão, Auge e Crise da Hegemonia NorteAmericana

Singer, P (2001). “Evolução da Economia e Vinculação Internacional”, in: Brasil: Um Século de Transformações, I. Sachs, J. Wilheim & PS Pinheiro, orgs. São Paulo, Companhia das Letras (p. 78-131, cap. 3).

Malan, P et al (1977). Política Econômica Externa e Industrialização no Brasil (1939 1952). Rio de Janeiro, IPEA (Introdução e p. 7-36).

Evans, P (1980). A Tríplice Aliança: As Multinacionais, as Estatais e o Capital Nacional no Desenvolvimento Dependente Brasileiro. Rio de Janeiro, Zahar (cap. 1).

Aula 9Caio Prado Jr.: Colônia, Nação e Passivo Colonial

Prado Jr., C (1942). Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo, Livraria Martins Editora (“Sentido da Colonização” e “Vida Material”).

Prado Jr., C (1985). História Econômica do Brasil. São Paulo, Editora Brasiliense, 32ª. Edição (“O Império Escravocrata e a Aurora Burguesa” e “A República Burguesa”).

Prado Jr., C (1989). História e Desenvolvimento. São Paulo, Editora Brasiliense, 3ª. edição. (caps. I e VI a VIII).

Prado Jr., C (1966). A Revolução Brasileira. São Paulo, Editora Brasiliense, 1966. (caps. II e VII).

Aula 10Celso Furtado: Desenvolvimento, Subdesenvolvimento e Dependência

Furtado, C (1965). Desenvolvimento e Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro, Editora Fundo de Cultura, 3a. edição (capítulo IV).

Furtado, C (1974). O Mito do Desenvolvimento Econômico. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 4ª. edição (caps. 1 e 2).

Furtado, C (2000). Introdução ao Desenvolvimento: Enfoque Histórico Estrutural. São Paulo, Paz e Terra, 3ª. Edição (caps. II, VII, IX a XI).

Aula 11Ignacio Rangel: A Dualidade Básica da Economia Brasileira

Rangel, I (1957) (2005). Dualidade Básica da Economia Brasileira. Rio de Janeiro, Contraponto, vol. 1.

Rangel, I (1955) (2005). Introdução ao Desenvolvimento Econômico Brasileiro. Rio de Janeiro, Contraponto, vol. 1.

Rangel, I (1983) (2005). Economia: Milagre e Anti Milagre. Rio de Janeiro, Contraponto, vol. 1.

Aula 12: Capitalismo Dependente, Estrutura de Classe e a Dupla Articulação

Fernandes, F (1975). Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 3ª. edição (cap. 1, parte 1).

Fernandes, F (1987). A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica. Rio de Janeiro, Editora Guanabara, 3ª. edição (caps. 2, 6 e 7).

AULA FINAL: Encerramento do Curso e Debate sobre o Momento Atual com os Alunos